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segunda-feira, junho 08, 2009

Ninguém meu amor




Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos.

 

 [Sebastião Alba]

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Thank God you're a man...

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What goes through your mind when someone says "Let's go for a drink"?




I don't care about it.

I simple lOve to be a wOman!

domingo, janeiro 11, 2009

ZerO hOras


Tenho, na minha garganta, um segredo por te gritar
Que me queima por dentro e me faz acreditar:
No dia em que souber que o meu mundo acabou
Vou soprar-te esta verdade e perguntar-te quem eu sou.

Na madrugada em que, por um acaso, nos encontramos à beira-rio, soube nos teus olhos que tinhas o mesmo segredo.

Entre passos de fantasma e restolhar de alucinação,
Pergunto-me se me segues enquanto corro na escuridão.
Se és a droga que me inebria e o dedo do destino,
Prende-te à minha loucura e corre no desatino...

... comigo. Seremos loucos e sozinhos.

Passos acelerados: daqui à morte, uma pulsação!
Elevemo-nos na noite e façamo-nos turbilhão.
Beija-me, agora que morro, antes que te tenha tempo de te soprar
A verdade de que sou feita e antes que te possa perguntar...

...Quem sou eu?

Deitámo-nos lado a lado e existimos, ao mesmo tempo, no coração do mundo. Fomos a Meia-Noite do dia seguinte que nunca nasceu.

Somos o mesmo, tu e eu.
A linha do horizonte.
Céu e Mar que se tocam.
Somos o arrepio gelado numa madrugada de Verão.
O último sonho da manhã.
O silêncio da cidade na hora de ponta.
Somos os anos.
O bater do coração de um morto.
O estagnar das horas.
Somos o cigarro que nunca se acende.
O preto.
O branco.
Somos cinzento.
A memória.
Eternos e efémeros.

Somos para sempre até ao momento em que para sempre paramos de ser.
E acalmamos o grito. E abraçamos o nada.

E fomos. E somos.



Texto original daqui


quarta-feira, dezembro 10, 2008

A Tempestade do Destino

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer.

Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra.

Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.

E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim.
Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.
Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'

sexta-feira, novembro 28, 2008

Amores Risíveis

GOLDBERG, abril 08 Fotografía Pere Ferrer


Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos a viver. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou.

Vivia como um desses excêntricos que acreditam escapar dos olhares indiscretos, protegidos por altas muralhas, porque deixam de levar em conta um pequeno detalhe: que essas muralhas são de vidro transparente.






Paret GOLDBERG Fotografía Pere Ferrer
…mas é sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem perceber, devemos actuar num outro espectáculo.
Milan Kundera, O livro dos Risíveis Amores

quinta-feira, novembro 27, 2008

quarta-feira, novembro 26, 2008

sexta-feira, outubro 17, 2008

Desire




Com a paixão desconcerta o pensamento
E ama. É física a profundidade.
Inspira Vénus o desejo ardente
Para nos mover à última ansiedade.

Num ser unívoco o amor enleia
Os corpos nus. Na área da magia
Rompe a brancura; e cresce, ao tempo alheia,
A onda do prazer, causa da vida.

Segura no infinito a carne aberta
Atrai o sangue que corre para a verdade
Procurando na jóia mais secreta
Do corpo a inicial da eternidade.

Um sol em agonia a tarde gera
E vai o espasmo ao mais fundo da alma
Buscar o grito casto que se enterra
Na terra fêmea e faz cair a máscara.

Lânguidas e lívidas esfolham-se então nos corpos
estrelas caídas no trono da loucura.
O sangue enrosca-se e faz sair dos poros
Um fumo de almas que mastigam nuvens.



[poema adaptado de Natália Correia]

segunda-feira, março 31, 2008

A tua voz na primavera


Manto de seda azul, o céu reflecte
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios húmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!


Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,

Se os roça ou prende a tua mão nervosa,

Têm a firmeza elástica dos gamos...


Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Florbela Espanca

Pic1: blue fabric on air by_josemanchado

Pic2: japanese_porcelain_by_alaya

Pic 3: fairy_love_by_alaya